Como o MEI cobra de você
A lógica do MEI é simples. Todo mês você paga uma guia única, o DAS, com valor fixo de cerca de R$ 80 a R$ 85 (muda um pouco com o salário mínimo). Esse valor é o mesmo se você fatura R$ 1.000 ou R$ 6.750: o DAS não cresce com o seu faturamento enquanto você estiver dentro do limite MEI.
No CLT, o desconto é diferente. Todo mês saem do seu bruto dois impostos: INSS (entre 7,5% e 14%, dependendo da faixa) e IRRF (zero até R$ 5.000 pela Reforma do IR, progressivo acima disso). Por cima, a empresa ainda paga FGTS, férias, 13º e contribuições sociais — você não vê esse dinheiro todo, mas parte dele vira benefício pra você.
A comparação honesta: não é só salário vs faturamento
O erro mais comum é pegar o "salário bruto CLT" e comparar direto com o "faturamento MEI". Não funciona. O salário CLT traz coisas embutidas que no MEI não existem naturalmente: 13º salário, 30 dias de férias remuneradas + 1/3, FGTS depositado todo mês, seguro-desemprego se você for mandado embora, plano de saúde subsidiado, estabilidade jurídica.
Por isso a calculadora mostra a valoração total CLT — seu líquido + tudo isso diluído em 12 meses. Essa é a base certa pra comparar com o líquido MEI (faturamento menos DAS menos custos fixos). Se você quiser ser ainda mais honesto, marque as reservas de 13º, férias e segurança no lado MEI — elas mostram o valor que você precisa separar por conta para ter o mesmo "efeito" do CLT.
O que você perde trocando CLT por MEI
- FGTS: 8% do seu salário, depositado pela empresa todo mês. É seu, fica rendendo e você saca em demissão sem justa causa ou pra comprar imóvel. Como MEI, esse dinheiro simplesmente não existe.
- 13º salário: um salário extra no fim do ano. No MEI, se quiser ter, precisa guardar 1/12 todo mês.
- Férias remuneradas + 1/3: 30 dias pagos por ano, com um terço a mais. No MEI, se você parar, a renda para junto.
- Seguro-desemprego: de 3 a 5 meses de renda caso a empresa te mande embora. MEI não tem. Se o cliente some, acabou.
- Plano de saúde subsidiado: a maioria das empresas paga parte ou quase tudo do plano. Como MEI, você paga por fora — e planos individuais costumam custar muito mais caro do que empresariais.
- Aposentadoria melhor: o INSS do CLT é calculado sobre o salário, então quanto maior o salário, maior a aposentadoria (até o teto). O INSS do MEI é só 5% do salário mínimo — aposentadoria é 1 salário mínimo, independente do que você fatura.
E o limite de R$ 81.000 por ano?
Esse é o teto do MEI em 2026 — na média, R$ 6.750 por mês. Se você ultrapassar no ano, o destino depende de quanto passou:
- Se passou até 20% do limite (faturou até R$ 97.200), você paga uma complementação de imposto sobre o excedente no próprio ano e é desenquadrado a partir de janeiro seguinte — vira Simples Nacional PJ normal.
- Se passou mais de 20%, o desenquadramento é retroativo ao mês em que ultrapassou. Você tem que recolher DAS de PJ desde ali, o que costuma ser um baita susto se não estava planejando.
Moral: se você está consistentemente perto do teto, vale começar a planejar a migração para Simples Nacional PJ. Nessa faixa, a calculadora CLT vs PJ é a ferramenta certa — o MEI não se aplica mais.
Premissas da calculadora
- Tabelas de 2026: INSS e IRRF atualizados com a Reforma do IR (isenção até R$ 5.000/mês e redutor até R$ 7.350).
- DAS-MEI: calculado como 5% do salário mínimo 2026 (R$ 1.580) + ICMS (R$ 1, comércio/indústria) + ISS (R$ 5, serviços).
- Não considera IRPF sobre o lucro do MEI: para a imensa maioria dos MEIs dentro do limite, esse imposto dá zero na prática. Se você está perto do teto como prestador de serviço, consulte um contador — pode haver um resíduo de IRPF.
- FGTS, 13º e férias contam no CLT: diluídos em 12 meses para compor a valoração total. O FGTS entra com valor cheio embora seja dinheiro travado.
- Reservas do MEI são opcionais: marque o que você quer guardar por conta para "replicar" o que o CLT dá. Cada reserva reduz o que sobra livre no mês.
- Aposentadoria limitada do MEI: o INSS do DAS só garante benefício de 1 salário mínimo. Para aposentadoria por tempo ou valor maior, precisa complementar com mais 15% — isso muda a matemática.
Exemplos práticos
Exemplo 1: entrada no mercado
Maria ganha R$ 3.500 bruto como CLT, tem R$ 500 de VR/VA e R$ 400 de plano de saúde. Um cliente oferece R$ 5.000 por mês pra ela virar MEI prestadora de serviços:
- CLT: líquido R$ 3.235 + benefícios diluídos ~R$ 1.630 (VR/VA + plano + 13º + férias + FGTS) ≈ R$ 4.865/mês
- MEI: R$ 5.000 − DAS R$ 84 − custos R$ 150 = R$ 4.766/mês
- Vantagem CLT: R$ 99/mês, mais toda a segurança (seguro-desemprego, plano subsidiado, aposentadoria proporcional). Nessa faixa, trocar por MEI raramente compensa.
Exemplo 2: perto do teto do MEI
João ganha R$ 4.500 bruto CLT + R$ 500 VR/VA + R$ 500 plano. O cliente oferece R$ 6.500 por mês como MEI serviços (perto do limite):
- CLT: líquido R$ 4.139 + benefícios ~R$ 2.000 ≈ R$ 6.139/mês
- MEI: R$ 6.500 − DAS R$ 84 − custos R$ 150 = R$ 6.266/mês
- Vantagem MEI: R$ 127/mês. Quase empata. Mas o MEI precisa guardar por conta 13º, férias, reserva pra mês sem cliente e plano particular. Depois dessas reservas, a CLT volta a ficar na frente.
O recado geral: em faixas de renda onde cabem no MEI (até R$ 6.750/mês), a CLT quase sempre sai na frente na valoração total, porque os benefícios embutidos valem muito. O MEI só começa a fazer mais sentido quando o cliente topa pagar claramente acima do seu CLT para compensar os benefícios que você perde — ou quando você preza a liberdade de trabalhar por conta mais do que a segurança.